Por muito tempo, o tratamento da obesidade foi resumido a uma equação simples: comer menos e se mexer mais. Dieta e exercício foram recomendados à exaustão. Ainda assim, a obesidade segue como uma doença crônica e progressiva, que afeta mais de 1 bilhão de pessoas no mundo.
Um artigo publicado em 2026 na revista Obesity Reviews, escrito por pesquisadoras do Hospital de Clínicas de Porto Alegre e da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, propõe uma explicação para essa conta que não fecha: falta uma peça no quebra-cabeça. E essa peça é a saúde mental.
A obesidade não é uma doença só
A obesidade não é uma condição única, que se manifesta igual em todas as pessoas. Ela é influenciada por muitos fatores ao mesmo tempo: genética, hormônios, metabolismo, sono, ambiente, condição social, uso de medicamentos e comportamento.
Entre esses fatores, os aspectos psicológicos e comportamentais costumam ser os menos reconhecidos no consultório. E eles influenciam tanto o início quanto a manutenção do ganho de peso.
Obesidade e saúde mental: duas condições que se alimentam
Segundo o artigo, duas em cada cinco pessoas que vivem com sobrepeso ou obesidade também preenchem critérios para um transtorno psiquiátrico, principalmente transtornos de humor, de ansiedade e transtornos alimentares.
As duas condições compartilham fatores de risco, como experiências difíceis na infância, sedentarismo, alimentação de baixa qualidade, dificuldade de regular as emoções e distúrbios do sono. E a relação é de mão dupla: a obesidade aumenta o risco de adoecimento mental, e o adoecimento mental aumenta o risco de obesidade. Juntas, uma tende a piorar o curso da outra.
Fome física e fome hedônica
Nem toda fome é igual.
A fome física (ou homeostática) é um mecanismo de sobrevivência: o corpo precisa de energia e sinaliza isso.
A fome hedônica é diferente. Ela envolve memória, emoção, aprendizado e a busca por prazer e recompensa. É a vontade de comer que aparece depois de um dia difícil, diante da ansiedade ou do cansaço, mesmo sem necessidade de energia.
Em pessoas que também convivem com um quadro de saúde mental, a impulsividade, a reatividade emocional e a dificuldade de perceber os sinais internos de fome e saciedade (o que se chama interocepção) podem dominar a experiência da fome.
O que é fenotipagem comportamental
É aqui que entra a proposta central do artigo: a fenotipagem comportamental.
A ideia é identificar o padrão que está por trás do comer de cada pessoa, em vez de tratar todo mundo da mesma forma. Alguns desses padrões descritos na literatura são:
- comer emocional, para aliviar ansiedade, tristeza ou estresse;
- episódios de compulsão alimentar;
- impulsividade e dificuldade de interromper o comportamento;
- sensibilidade aumentada à recompensa, com busca intensa por prazer na comida;
- dificuldade de perceber fome e saciedade;
- ritmo de sono desregulado e alimentação concentrada no fim da noite.
Reconhecer esses perfis pode ajudar a escolher estratégias mais adequadas: psicoterapia, orientação nutricional focada em comportamento, tratamento da ansiedade ou da depressão e, quando indicado, medicação.
Em um estudo clínico citado pelas autoras, o tratamento guiado por fenótipos teve melhores resultados do que a abordagem convencional. Mas elas são cuidadosas: ainda são necessários mais estudos para confirmar se esses perfis têm validade e utilidade suficientes para orientar o tratamento de rotina. É uma abordagem promissora, ainda em construção.
Não é falta de força de vontade
Um dos pontos mais importantes do artigo é este: comer para lidar com o estresse ou a angústia não é sinal de fraqueza. É uma resposta do cérebro e do corpo a um desequilíbrio crônico na forma como os dois se comunicam.
Quando a dificuldade com o peso é entendida como falta de esforço, o resultado costuma ser culpa, frustração e abandono do tratamento. Quando ela é entendida como parte de um quadro que também envolve a saúde mental, o cuidado muda.
O que isso muda no cuidado
As autoras defendem que o tratamento da obesidade incorpore a saúde mental de forma consistente. Na prática, isso significa:
- avaliar a saúde mental de quem busca tratamento para o peso, e não só a dieta e os exames;
- tratar os dois lados juntos: o quadro emocional e os padrões de comportamento alimentar;
- em alguns casos, estabilizar primeiro os sintomas psiquiátricos antes de propor mudanças intensas de estilo de vida, o que pode melhorar a adesão ao longo do tempo;
- valorizar abordagens que aumentam a percepção dos sinais do corpo, fortalecem o autocontrole e reduzem a reatividade emocional, como terapia comportamental, práticas de atenção plena e orientação nutricional individualizada;
- reconhecer que os medicamentos modernos para obesidade trouxeram avanços importantes, mas que o resultado ainda pode ser afetado por comer emocional, impulsividade e sofrimento psicológico;
- trabalhar em equipe: médicos, psiquiatras, psicólogos, nutricionistas e outros profissionais conversando entre si.
Quando procurar ajuda
Vale buscar uma avaliação se você percebe que:
- come com frequência para aliviar ansiedade, tristeza, tédio ou cansaço;
- tem episódios em que sente que perdeu o controle sobre o quanto come;
- sente muita culpa ou vergonha depois de comer;
- já tentou várias dietas e sente que o problema não é falta de informação;
- dorme mal e percebe que isso afeta a sua fome;
- sente que a relação com a comida está ligada ao que você sente.
Você não precisa resolver isso sozinha. E não precisa esperar chegar no limite para cuidar.
Referência
Fonseca NKO, Brietzke E, Manfro GG. Obesity and Mental Health: A Missing Piece in the Puzzle. Obesity Reviews. 2026;e70205. doi:10.1111/obr.70205
Dra. Thayná Carneiro, CRM-ES 22001. Este conteúdo é informativo e não substitui uma consulta médica. Cada caso exige avaliação individual.
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Este conteúdo é informativo e não substitui uma consulta médica. Se você se reconheceu no texto, vale conversar com um médico.
Dra. Thayná Carneiro
Médica · CRM-ES 22001 · Atendimento presencial em Vila Velha (ES) e online para todo o Brasil.
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